sábado, 4 de dezembro de 2010

Os cavadores


Se percorrermos os antropónimos dos nossos conterrâneos, encontramos ainda muitos deles ligados às profissões que exerciam. Assim de repente vêm-me à ideia alguns: Ferrador, Caldeireiro, Trolha, Pedreiro, Ferreiro, Albardeiro, Alfaiate, Moleiro ...

Um amigo também interessado nestas coisas corográficas, disse-me um dia que, não há outra aldeia no concelho com tantas profissões como a nossa (em tempos de outrora, obviamente). Essa proliferação de profissões levou-me a concluir e a sustentar a tese de que, esta opção se devia ao facto de os habitantes da altura não serem donos de terras, isto porque o principal senhorio era o Mosteiro de Bouro, cujas terras ia arrendando a rendeiros de fora. Assim sendo, os nossos antepassados viram-se na obrigação de se dedicarem a outras actividades económicas que não o trabalho da terra. No segundo sentido desta opção, e sabiamente, esses mesteres (profissional que domina uma arte) acabavam por produzir artigos que depois forneciam ao Mosteiro, aos seus rendeiros e que também venderiam nas feiras.

Contudo, com o tempo, a partir de 1834, e com a extinção das ordens religiosas, as terras do Mosteiro foram parar às mãos de burgueses endinheirados que as remataram em hasta pública, quase todos eles oriundos de fora. Esses novos brugueses formaram as chamadas casas grandes, como a Casa Oliveira, a Casa do Aleixo, a do Monteiro, e provavelmente outras. Estas casas agregavam em si grupos de obreiros que, anualmente, trabalhavam as terras dessas casas, que dependendo das actividades, se viam obrigados a reforçar essa gente, nomeadamente no tempo das vindimas e da apanha da azeitona.



O termo que me parece mais adequado para denominar esta gente é mesmo a palavra obreiro. Geralmente homens, eram pessoas pouco qualificadas pelo que o exercício da sua função não exigia grande especialização, embora houvesse alguns mais experimentados em algumas tarefas, tais como a enxertia, a poda ou a limpa. Por isso, o título do post pode não ser o mais adequado, mas só o escolhi porque todos eles estão com o satcho nas mãos ( e a imprescindível cabaça).

Pelo que julgo saber, já só um deles se encontra vivo, tendo todos os outros falecido, um deles afogado num poço. Quando me mostraram a fotografia, houve caras das quais me lembrava ainda perfeitamente, outra que não conheci e outra sobre a qual tenho dúvidas. Talvez o único sobrevivente venha aqui parar e assim nos possa fazer a legendagem correcta.

A fotografia foi-me emprestada pelo Zé Carlos "Preto" que me chamou lá a casa para entusiasticamente ma mostrar, com a ideia de que fosse colocada aqui no blog, o qual ele não se cansa de orgulhosamente divulgar pelos seus colegas camionistas, para apreciarem as maravilhas da sua terra. A nossa terra agradece. Obrigado, Zé Carlos.

2 comentários:

Anónimo disse...

bela imagem. De lembrar que os "obreiros" estão em vias de extinção, mas como a História não passa de um ciclo... meus amigos, outros tempos (já esquecidos) virão.Assim a construção, passa a ser destruição , para novamente construir.
abraço conterrâneo

seródio disse...

Realmente a História ensina-nos essa versão ciclica do decorrer dos acontecimentos, mas meu amigo, duvido que esses tempos de outrora voltem a vir ... se por um lado ainda bem, por outro ainda muito mal.Hoje em dia as pessoas habituaram-se a um malígno facilitismo, onde lhe porprocionam rendimentos sem terem que nada fazer para o merecerem; a subsídios que desbaratam em mundanices para depois deixarem tudo ao abandono ... enfim!
Estes pobres não. Chamo-lhes pobres porque o eram na realidade. Rebentavam-se arduamente a trabalhar para os "grandes senhores" que mal lhes pagavam e ainda por cima lhes tiravam o chapéu ao passarem. E depois da jeira, ainda iam moer mais o corpo em terras e hortas alugadas a esses ditos senhores. Isto se queriam ter umas couves e umas batatas, acompanhdas por ténue fio de azeite.
Que esses tempos não se repitam e que os tempos de hoje se revolucionem.

abraço conterrâneo