segunda-feira, 3 de agosto de 2009

outros tempos

A primeira vez que vi esta foto, não consegui identificar a pessoa, embora não tivesse andado muito longe visto que as semelhanças são por demais evidentes.

O que realmente me intrigava era o local onde fora tirada, local esse que também não consegui identificar, isto porque não consegui localizar aquele edifício na nossa aldeia.

No entanto, é lá. Se por acaso alguém quiser tentar reconhecer a senhora e identificar o local, poderemos fazer aqui um interessante exercício de memória.

Acrescento que, nas costas da foto está inscrita a data de 17-8-1957, ficando sem saber ao certo se corresponde ao momento captado.

Bons palpites.

seródio

domingo, 28 de junho de 2009

Cascata!

Alguém disse que, quando se quer a obra nasce.

Se bem que já estivesse anunciada a construção de uma cascata na Escaleirinha, a Comissão de Festas também quis, e muito bem, fazer a sua própria cascata junto do salão da Junta de Freguesia.

Sem aguentar por muito tempo a curiosidade, toca de ir ver a obra. À tarde, pela hora do café lá fomos dar uma volta e vimo-la tal como aqui se apresenta. Tendo ainda na memória as cascatas da minha infância, esperava vê-la enfeitada com caçoulos e bonecada, com alguidares cheios de água onde estariam cágados e rãs. A bem da verdade, só me lembro dos cágados, mas outros disseram que as rãs também entravam na festa. Adorei ver lá a "piteira", árvore exótica nos nossos lados mas imprescindível numa cascata.
Convencido que era obra meia feita, esperava voltar lá à noite para ver o estanderete.

À noite, sob o fraterno olhar da enorme piteira, os cacos voltavam a não lá estar.
Embora houvesse música, um fogareiro ali à mão e bebidas frescas para quem quisesse, a malta de Santa Comba continua a não dar importância a estes momentos de encontro entre pessoas. Sendo sábado, com tempo agradável e tudo o resto, valorizou-se mais a feira de S. Pedro em Macedo e a concentração motard em Mirandela. Mas tudo bem! Só lá esteve quem teve vontade de lá estar ...

... estiveram lá uns


... e outros.

Mas como alguém diria: "Caramba, mas o S. Pedro é o nosso santo padroeiro e ninguém lhe dá importância nenhuma, ao passo que o "emigrante" do S. Bernardo tem grande admiração. Tudo bem também, não discuto valores de importâncias!
O facto é que se passou ali um bom bocado, obviamente com a cascata como tema de conversa. Uns lembravam-se delas nas Eiras, outros na Barreira e quanto a mim, só me lembro de duas: uma feita no Terreiro, encostada àquelas laranjeiras do Sousa Pinto (da qual me lembro de ir á murta ao Seritche) e outra encostada à Casa Nova.
P'ró ano veremos! Mas ficou como ponto assente que não iremos deixar morrer este acontecimento.

seródio





quarta-feira, 24 de junho de 2009

Sei um ninho



Sei um ninho.

E o ninho tem um ovo.

E o ovo, redondinho,

Tem lá dentro um passarinho

Novo.



Mas escusam de me atentar:

Nem o tiro, nem o ensino.

Quero ser um bom menino

E guardar

Este segredo comigo.

E ter depois um amigo

Que faça o pino

A voar...

Miguel Torga

Quem sabe nunca esquece.

Num passeio, encontrei um ninho de melro. Foi só deitar um olho para o sítio de onde saiu a pássara. E pronto. Ele ali estava. À mão de tirar uma foto. Já devem ter crescido e voado.

seródio

domingo, 21 de junho de 2009

Que calor!

Não serão precisas muitas palavras para definir o calor que faz na nossa terra, por estas alturas, pois quem lá costuma estar sabe muito bem a recresta que por ali faz.

Para quem lá trabalha, todos sabemos o desgaste que tanto calor provoca, seja nas lides do campo, seja na construção ou noutros serviços. No caso da lavoura, não há outro remédio senão o de adaptar o tempo de trabalho ao horário de Verão, usando-se para isso a meia-jeira, aproveitando-se depois a seguir ao almoço para fazer uma sesta.

Para dizer a verdade, não me custa muito suportar o calor durante o dia, pois há sempre maneira de o combater com uma boa fresqueira e a goela bem regada. Mas durante a noite é que são elas! Uma vez que não tenho uma loja fresca, nem patim nem terraço, torna-se insuportável andar na cama às voltas sem conseguir dormir e sempre alagado em água.

Para editar este post veio-me à ideia uma descrição interessantíssima que Pinho Leal faz do clima do Vale da Vilariça em 1873 no seu Portugal Antigo e Moderno. A acreditar nas suas palavras, agora até que não nos podemos queixar muito, senão vejamos:

"Todo este valle é ardentíssimo no verão, por estar abrigado a N.-E.-e O.- e voltado para S., recebendo de chapa os raios do sol que o transformam em uma caldeira ou fornalha candente, onde tremem sesões os gatos, as gallinhas e os cães, derrete-se a solda das vasilhas de lata, destemperam-se os instrumentos de corte e estalam as pedras com calor ..."

seródio

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Houve Abril em Santa Comba!

Já lá vão todos estes anos e ainda me lembro de alguma actividade Avenida abaixo. Sei que havia entusiasmo, muita gente e vontade de estar ali.
O tanque d'Avenida sempre jorrou água com fartura e quantas foram as vezes que me enchi dela bebida naquele gritcho. Paravam por lá os ciganos e aqueles que vinham da horta e ali davam de beber à cria. E todos os outros também.
Passou o tempo, secou o gritcho e o tanque por ali ficou, com memórias de um povo antigo. Todos nós guardamos recordações desse tempo, gravadas em nós por todas as saudades que dali sentimos.
Desse tempo ou de outro, em todos lugares, hei-de sempre festejar Abril. Sem qualquer dúvida, gosto de viver este dia como aquele em que me dá mais gozo viver. Festejo alegremente todos os momentos e os lugares onde nunca estive, para dessa forma, gostar de me sentir livre. Por vezes esqueço-me do cravo. Sou livre para isso!

Viva a liberdade!
seródio

quarta-feira, 25 de março de 2009

"O CORREIO DE SANTA COMBA DE VILARIÇA"




"A pequena povoação, outrora denominada Póvoa de Além Sabor, que primeiro habitaram Romanos e depois Mouros, aí deixando, uns e outros, duradoiro testemunho de civilização, deveria alargar-se no decorrer das idades.
Terra, além do mais, formosa de natureza, mudou-lhe D. Dinis o nome para Vila Flor, ao tempo que a distinguia com um foral e a mandava guarnecer de muralhas.
Florescente até ao século XVI, vicissitudes económicas lhe advieram, mas o concelho permanece, entre os antigos da nacionalidade, e, nas últimas décadas, ganha notável alento.
A ele faz honra a feguesia de Santa Comba da Vilariça, celebrada no cancioneiro de Trás-os-Montes:

Das cidades, o Porto
das vilas, Vila Real
das aldeias, Santa Comba,
das quintas, o Carrascal!

E não é só a quadra popular ... Na margem direita da ribeira de seu nome, desdobrando-se por belíssimo vale, o enquadramento da paisagem e o donaire de seu aglomerado levou alguém a escrever que "mais parece um pormenor dum presépio de Machado de Castro".
Antiga e rica que foi, tem tradições.
Em eras idas, fora vigararia de D.Abade do Real Convento de Bouro, que pertenceu à Ordem de S. Bernardo.
Nela existem, entre moradias bem afeiçoadas, algumas que guardam o timbre dos antigos solares transmontanos, na arquitectura e na origem. A Casa Ochoa evoca um passado senhorial e mediévico com a sua chaminé de granito encimada de coruchéus.
Entre relíquias de antanho, mais ainda os dois cruzeiros, que se diz terem sido levantados no século XIII.
Nesta região se fez, em larga escala, noutro tempo, a cultura do bicho-da-seda.
Cerca de 750 habitantes em 200 fogos, agricultura farta, sobretudo na produção de azeite, muito comércio, electrificação e água potável, escolas e boas estradas são os elementos que entram no actual conjunto da povoação.
Acrescentando as condições favoráveis ao desenvolvimento da terra, os CTT inauguram hoje o Correio de Santa Comba.
É uma nova estação, pela qual todos ansiavam, tanto mais que se reputa fundamental para o progresso de uma terra um serviço de comunicações, por carta, telégrafo e telefone, eficiente e cómodo.
A criação do novo Correio foi autorizada em despacho de 24 de Julho de 1962, mas houve que aguardar o aprecimento da casa adequada.
A dificuldade solucionou-se por intermédio do conhecido Plano de Instalação e Reinstalação de Estações, o qual regulou o acordo entre a Administração-Geral e o proprietário do edifício.
Eficiência e comodidade serão exigências satisfeitas a partir de agora. A casa e o apetrechamneto da estação asseguram-nas.
Os CTT salientam a boa vontade da proprietária, senhora D. Noémia Nair Cachapuz Guerra de Sousa Pinto, que colaborou nesta realidade de manifesta impôrtância local".


Provavelmente, já muita gente terá visto este panfleto lançado aquando da inauguração dos nossos correios. Como se pode ver, os serviços culturais dos CTT, aos quais pertende o texto acima, fizera um curto, mas interessante trabalho de investigação, bastante para o tipo de cerimónia que se prentedia.
seródio

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Casa do Povo de Santa Comba da Vilariça

CONSTRUÇÃO DA SEDE SOCIAL


"Em cumprimento do deliberado em reunião de 18 de Maio de 1966, faz-se público que no dia 21 de Junho de 1966, pelas 15.30 horas, em Bragança e instalações da Brigada Técnica da Comissão Cordenadora dos Serviços Médicos das Instituições de Providência, no Palácio das Corporações, se procederá ao concurso público para arrematação da empreitada de construção da sede social da Casa do Povo de Santa Comba da Vilariça, do concelho de Vila Flor.

Base de licitação - 405 000$00 (quatrocentos e cinco mil escudos)

Para ser admitido ao concurso é necessário apresentar, naquela Brigada em qualquer dia útil, durante as horas do seu expediente normal ou até às 12 horas do referido dia 21, documento comprovativo de ter sido efectuado na Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência, suas Filiais ou Delegações, mediante guia passada pela mesma Brigada, o Depósito provisório de 2,5% da Base de Licitação, na importância de 10 125$00 (dez mil cento e vinte e cinco escudos).

O Depóstivo definitivo, ainda à ordem desta Brigada, será de 5% do valor da adjudicação.

O programa do concurso, condições técnicas (gerais e especiais) e o projecto estarão patentes todos os dias úteis e durante as horas normais de serviço, nas instalações da Brigada Técnica para exame e elucidação de qualquer interessado".

Bragança, 20 de Maio de 1966

Coomissão Coordenadora dos Serviços Médicos das Instituições de Previdência

O Presidente

Eduardo Franco-Ferreira

seródio

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Montaria ao Javali


Realizou-se na nossa aldeia mais uma edição da montaria aos javalis.
Logo cedo, por volta das 8 h 30, começaram a chegar os primeiros caçadores e ia-se dando uma olhadela ao tempo.
Como toda a ajuda é pouca, toca de arregaçar as mangas e começar a tratar do mata-bicho.
Elemento fundamental de uma montaria: as matilhas. Este ano entraram seis.
Como tem vindo sendo hábito, os restos da fogueira de Natal são aproveitados para este dia e diga-se de passagem que bom jeito dá.
Acendem-se outras fogueiras e, enquanto se fazem brasas, aguarda-se que vá chegando o resto do pessoal.
Feitas as brasas, há que pôr nas grelhas as assaduras que vão enriquecer o mata-bicho.
Compra-se a "porta" ...
... e dá-se uma olhadela à mancha.
Montada a mesa para o mata-bicho ...

... todos se apressam em chegar-se à frente para, de navalha em riste, atacar os nacos mais apetecíveis. Além da carne assada, do mata-bicho constava ainda: pão, bolas (das nossas),presunto, queijo, nozes, sumos e vinho.

E obviamente, todos quiseram uma canja quentinha para acabar de reconfortar o estômago.

Aguardava-se o sorteio das portas e ia-se confraternizando, revendo velhos amigos e contando outras façanhas.

Chegado o sorteio, cada caçador era chamado e dirigia-se à organização de onde retirava um envelope com um número. Depois de visto o número, a curiosidade levava-nos novamente a espreitar a mancha para assim vermos a nossa posição.

Visto o número, cada caçador dirigia-se à respectiva armada que o iria levar à porta destinada.

Rego-do-Souto acima, lá seguiram as armadas cada uma com seu destino.

Calhou-me a porta 45. Vim na armada do Ti Chico, o qual me disse ser ali bom sítio.

Na paisagem, viam-se lá atrás, montes de Benlhevai.

Como a minha porta se encontrava quase no limite da mancha e logo no local onde entraram duas matilhas, após a passagem destas logo deduzi que a montaria para mim estaria feita.

A chegada com o resultado da caçada é sempre aguardada com expectativa pelos caçadores e também por muitos locais curiosos.

Apesar de tudo não foi má, mas nada que se comparasse com o ano passado, onde se capturaram 11 peças.



Enquanto se rematavam 3 dos javalis, iam-se vendendo umas rifas para sortear o outro. Sorte que acabou por calhar a um caçador de Sampaio.

No interior do salão, encontrava-se já posta a mesa para dar de jantar aos caçadores.

Em saudável convívio, caçadores, matilheiros e outros colaboradores, finalizaram então este comprido e agradável dia.

Apesar de ainda não ter feito muitas montarias, ainda não vi nenhuma com as condições da nossa. E esta conclusão pode também ser escutada nos comentários que outros caçadores vão fazendo: boa organização, boas condições, espaço à farta para estacionamentos e o mais importante: tem havido sempre recos.

Resta-me concluir com agrado, o facto de alguns conterrãneos nossos, mesmo não sendo caçadores, participaram com muito agrado nesta actividade, sentido algum orgulho por dela fazer parte.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Por Santa Comba, na noite de Natal

Apesar de todo este frio e nevoeiro, sempre esteve garantido que só a fogueira de Natal me tiraria do agradável e reconfortante aconchego familiar!
Como a prole ainda faz questão que o velho gordo e barbudo apareça, toca lá de alombar com o saco das prendas às costas escadas acima. Depois de desembrulhado todo o entusiamo e ansiedade, ainda houve tempo para continuar a encher o bandulho com as respectivas iguarias da época.
Por volta da uma hora, a companhia começou a adormecer e a desmobilizar. Como não sou de ir à cama cedo, decidi-me dar uma volta pela noite, como gosto de às vezes fazer.

Aparelhado e cheio de ilusão, lá pus pernas ao caminho encetando a viagem pela descida da Travessa da Escaleirinha. Curiosamente, também nunca tinha visto a aldeia com esta tonalidade: o tom amarelado dos candeeiros misturado com a densa cortina do nevoeiro, emprestava ao ambiente, um tom baço e antigo. Magnífico!

O adro tornava-se esplendoroso!

Construção de outras épocas, mas bem restaurada e com ricos pormenores.

Pormenor interessantíssimo sobre a entrada da sacristia. Embora conheça alguma da sua história, continuo a interrogar-me sobre esta sua localização. Voltaremos cá.

Canto outrora escurinho, onde se devem ter trocado doces e ternas palavras, hoje encontra-se ricamente iluminado.

Atravessado o Terreiro, fomos de encontro à Portela, cantinho onde alegremente cresci e vivi quase toda a minha vida. Quanta gente havia por aqui noutros tempos! Mas hoje, posso afiançar que se encontra totalmente deserto. Como o tempo passa, tudo passa também.

Acredito que a Casa do Casulo (ou casa do Lopes) com uma operação estética identica à sua vizinha do lado, tornar-se-ia um um belo acontecimento.

Cá está a Barreira! Lugar de encontro de todos os encontros, onde se devem ter passado a maior parte de saudosos e bons momentos. Apesar de sozinha continua acolhedora. Inesquecível!

E lá vamos nós calçada abaixo, tentando adivinhar quais os companheiros que se encontrarão a alimentar o solestício. Mas ao mesmo tempo estranhava tanto silêncio!

Acompanhado pelo Senhor da Boa-Morte, o nosso presépio encontrou a gruta ideal para se abrigar.

Apesar de magro de reis, na sua simplicidade tornava-se eternecedor contemplar majestosas figuras.
E uma estrela feita árvore.


E heis que então ... surgiu a fogueira, sozinha e triste. Não queria acreditar: uma fogueira de Natal só para mim?! Sabendo que calado é a forma de melhor pensar, nem palavra que disse. Aproximo-me do calor, atiço os canhotos, pego num guiço, acendo e fumo um saboroso e pensativo cigarro. Então, sozinho e comigo, lá me convenço de ter passado uma belíssima noite de Natal. E ala que se faz tarde!

Casa, onde com 15 anos, comecei as minhas lides na construção civil em tempo de férias. Os azulejos daquela varanda, foram abondados por mim ao artista.

E daqui, o largo das Eiras com o seu envergonhado coreto e a escola de cima.

A caminho de casa, ao subir o Tambarão, ainda pensei que o Santo António me lançava um olhar reprovador, mas lá o tranquilizei com um silencioso e fraterno Feliz Natal.

seródio